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Artigos e Crônicas

Coloco aqui somente uma pequena amostra do meu trabalho.

Artigos publicados:

Crise no Jornalismo: falta envolvimento

JORNALISMO EM CRISE
Luciana Oncken

“Crise no jornalismo: falta envolvimento”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 4/06/04

“Não é novidade para ninguém que o jornalismo está em crise. Mas muito se fala sobre a crise financeira que atinge as empresas do setor e pouco sobre a crise da forma, pouco se discute sobre a crise do texto, a crise do método. O jornalista está mais preocupado em discutir se precisa ou não do diploma para exercer a profissão sem se aprofundar sobre a sua formação. Antes de tudo, é preciso alma, paixão para exercer bem qualquer atividade. E quando se tem isso, a busca pelo conhecimento é uma conseqüência.

A crise do jornalismo é mais profunda: regras exageradas, textos burocráticos, matérias superficiais. Mas um dos problemas que tem me incomodado muito é a forma como se faz jornalismo hoje. A falta de entusiasmo, de envolvimento. O profissional se acomoda porque hoje é possível fazer tudo sem colocar os pés para fora da redação, às vezes nem é preciso ir até ela. Faz-se tudo de casa mesmo. Fax, telefone, Internet. O jovem jornalista tem dificuldade em se imaginar na profissão sem todo esse aparato.

Ele recebe, por exemplo, a incumbência de escrever sobre o dia-a-dia de um médico que trabalha no resgate e atende vítimas de acidente de trânsito. Mas quem disse que levanta o bumbum da cadeira? Não. Fotógrafo e repórter trabalham separados. O fotógrafo não tem como escapar. Lá vai ele, solitário, acompanhar a ambulância. Para o repórter, o telefone entra em ação.

Pergunta ao médico como é seu dia-a-dia, como é a ambulância, quais são suas reações, como ele age, etc. E coloca na matéria que é assim, assim e tal. Você já imaginou quantas coisas ele perde? E as impressões? Não registra o que é, registra o que dizem ser. E o compromisso com a verdade, como é que fica?

Não estamos falando de um caso fictício. Isso acontece nas redações de hoje. Nem de jornalismo de noticiário, onde toda essa tecnologia é muito bem vinda. Há casos de grandes reportagens feitas por telefone. Do jornalista que não vai mais às ruas. Pode parecer dramático, radical, mas isso influencia o resultado do trabalho. Algumas matérias exigem a presença do jornalista. Caso contrário, não se trata de jornalismo.

Alguns dirão que o deadline é o verdadeiro vilão da história. Outros, que é a crise financeira. Há os que colocarão a culpa na própria tecnologia, ou nos patrões. Será o diploma? A falta dele? A sua exigência?

Pode ser tudo isso e um pouco mais: preguiça, falta de compreensão sobre o fazer do jornalismo, a banalização, o número exagerado de escolas que enganam jovens dizendo ensinar a profissão, falta de paixão, de alma, de conhecimento, de sentimento. Como diz meu amigo Sergio Vilas Boas: ‘quem não vê a realidade com os próprios olhos, não a sente e, se não a sente, não se envolve’. (*) Jornalista”

Obrigatoriedade do diploma? Não sei. Mas da faculdade, sim!

DIPLOMA EM XEQUE

Luciana Oncken

“Obrigatoriedade do diploma? Não sei. Mas da faculdade, sim!”, Comunique-se (www.comunique.com.br), 16/03/04

“Não sei se o diploma é necessário ou não. Mas defendo a faculdade sim. Pode parecer contraditório, mas não é. Não me arrependo nem um pouco de ter adquirido o meu. Não pelo fato de ter um papel dentro de um canudo (que eu ao menos lembro onde está) com letras bonitas, escritas por um calígrafo: ‘Bacharel em Comunicação Social, Jornalismo’. Não, não por isso. Mas por ter sido na faculdade o lugar onde tive a oportunidade do contato com grandes figuras do jornalismo, meus mestres queridos (a maior parte nem deve ter cursado uma faculdade de jornalismo, acredito). Não. Mas em que outro lugar, se não na minha querida Cásper Líbero, eu teria tido a oportunidade de ouvir e ver trabalhar o inesquecível Marcos Faerman? Não que suas aulas fossem cheias de teorias sobre o fazer jornalismo, mas eram repletas de paixão pela profissão, de histórias incríveis.

E eu me lembro até hoje daquelas mãos sofridas, daquele corpo maltratado pelo exercício da profissão. Mas feliz. Feliz por ter feito o que amava. Feliz por escrever tão grandiosamente como escrevia e orgulhoso por ter passado por tudo o que passou. E contava suas histórias, as histórias de suas grandes reportagens, da guerrilha do Araguaia, de tempos duros, da ditadura.

E eu ficava só escutando sua fala mansa, mas intensa. Seus olhos viajando, relembrando, revivendo velhos tempos. E as mãos castigadas, calos em todos os dedos. Seriam de tanto bater à máquina?, eu pensava. Seriam marcas das torturas? O mestre imortal, louco, desvairado. O mestre imortal, e seu ‘A sangue frio’, de Truman Capote. Amava Capote. Amava o jornalismo. Amava as palavras. Marcos Faerman, o mestre imortal, incompreendido.

E foi ali, em sua aula, que me apaixonei ainda mais pela profissão. E vieram outros mestres, como Marcelo Coelho, Bob Fernandes e tantos mais. E quantas amizades fiz. E não tem nada que substitua isso. Por isso, orgulho-me, sim, de ter o meu diploma em algum lugar que não me lembro onde.”

Os dois artigos acima foram publicados originalmente no site de Comunique-se e reproduzidos pelo Observatório da Imprensa (fato que me deixou bastante contente, porque só bons textos são escolhidos para figurar na coluna “Aspas” deste respeitado veículo).

CRÔNICAS

Ser alguém
Vocês já perceberam (é claro que já!) que a maioria das pessoas sempre aspirou “ser alguém”?! Mas o que quer dizer “ser alguém”? Antigamente, ser alguém significava terminar os estudos, fazer uma faculdade, passar num concurso público, ou conseguir um emprego numa boa empresa onde se pudesse passar toda vida, de preferência numa multinacional. Aí sim, era quando “chegávamos lá”.O próprio “Aurélio” diz, entre outras definições, que alguém “é uma pessoa de relevo intelectual e/ou social”. E dá como exemplo: “Sua maior ambição na era ser alguém na vida”.Nos dias de hoje, ser alguém não necessariamente requer estudo. Em alguns casos sim, mas nem sempre. Ser alguém está relacionado com o mundo do espetáculo. A vida virou um palco para exibirmos nossas habilidades, ou a falta delas. Ser alguém, em tempos de “Big Brother”, é estar na mídia, aparecer na TV, nos jornais, na revista. Não interessa muito por qual motivo. O importante é estar lá. A relevância do seu trabalho é o que menos importa. Ser bonito, descolado, fashion, ajuda muito.  Aí é mais fácil “chegar lá”.As pessoas ficam vidradas com a possibilidade de encontrar um sujeito que pode “ser alguém”. E tirar uma palavra, um sorriso, um aperto de mão desse “pseudo-alguém” virou uma obsessão. Lembro da história de um maluco amigo meu que foi participar do programa “Caldeirão do Huck” fazendo uma apresentação de guitarra imaginária. Chegando à Rede Globo ele foi abordado por um bando de menininhas histéricas, as “caça-alguém”, que soltaram a intrigante pergunta: “Você é alguém?”. Ele explicou o que fazia ali e as meninas fizeram questão de bater uma foto e, é claro, de pedir um autógrafo.Lembro-me também de uma outra história. Queríamos, eu e meu marido, assistir a um filme no cinema, mas consultando a agenda nos jornais percebemos que não havia nenhum filme interessante. Havia muitos “alguéns”, em muitas películas, mas nenhuma história que nos entusiasmasse.Fomos jantar e depois, só por desencargo de consciência, resolvemos passar pela porta do cinema e vimos que estava passando um filme interessante, com “alguéns” interessantes, interpretando “zés-ninguéns” como nós.  Vimos que havia uma fila. Subimos até a bilheteria e antes de chegarmos lá fomos interceptados por uma moça em traje brilhante, muito simpática, que nos perguntou se tínhamos convite. Meu marido pôs as mãos no bolso como se procurasse algum papel escondido. E meio sem graça disse que não, mas tinha intenção de comprá-los. Ela explicou que se tratava uma pré-estréia não aberta a meros desconhecidos. Foi aí que ela nos indagou: “Mas vocês são amigos de alguém?”. Ficamos com cara de interrogação. Pensando o que ela quis dizer com “ser amigo de alguém”. Quem seria alguém? Qual seria o código para entrar naquela pré-estréia? Quem seria o alguém que nos abriria a porta e a oportunidade de ver o filme antes dos “zés-ninguéns”?Também, isso não me importa, porque estou contente com os meus amigos que me abrem muitas outras portas, e oferecem a salas de suas casas para um bate-papo gostoso e me deixam entrar e fazer parte de suas vidas. Esses são os verdadeiros alguéns da minha vida. Simplesmente pessoas que representam algo pra mim, com quem aprendo, choro, morro de rir, me divirto, me estresso.Naquele momento, tive vontade de sacar uma lista dos meus queridos amigos como resposta: “Olha, querida, basta ser amigo de alguém para entrar? Que bom! Porque amigos não me faltam. Sou amiga da Luana, da Aline, do Osmar, da Carime, do Carlos, do Danilo, do Flávio. Sou amiga da Rose, da Laura, da Lu, da Patrícia, da Alexandra, da Renata (aliás que saudades dela!). Também sou do Alexandre, do João, do Leandro, da Tati. Tem a Ju, a Ira, a Milca, o Denis. Ah! O Celso e a Vivi. São tantos que é difícil citar todos e o tempo vai se esgotar e vai subir aquela musiquinha e cortar a minha fala…!”. Ooops, não é a cerimônia do Oscar, é?

Publicada no Comunique-se

Num domingo qualquer

Outro dia assistia ao filme “Um Domingo Qualquer”, de Oliver Stone (EUA, 1999), e uma frase dita pela personagem de Al Pacino me fez lembrar uma situação que passei, exatamente, num domingo qualquer:
“Ou nos curamos como equipe, ou morremos como indivíduo.”
******
Tinha chegado tarde, no sábado, de uma viagem a negócios. Percebi, ao entrar no prédio, que havia um pouco de água escorrendo na entrada do térreo e no hall do meu apartamento, no primeiro andar. Cansada, não esquentei muito a cabeça. Fui direto pra cama. Acordei tarde no domingo e estava estirada no sofá quando ouvi uma enxurrada no corredor. Parecia haver uma cachoeira dentro do prédio. Abri a porta e constatei que não era uma simples impressão. Havia uma verdadeira queda d´água. Jorrava água pelo vão do elevador, pelo vão da escada de serviço, escorria pelas paredes.
Meu marido desceu pra ver o que tinha acontecido. Descobriu que um cano da caixa d´água havia estourado e ela vinha toda abaixo, 17 andares abaixo. Imediatamente saímos com os nossos rodos na mão para ajudar a conter a água, de modo que ela não invadisse os apartamentos. No meu andar, o pessoal do 14 estava viajando. Tratei de puxar a água e impedir com alguns panos que ela entrasse pelo vão da porta. No terceiro andar, uma senhora já com seus 80 anos não podia fazer o trabalho braçal. Problema de coluna. Nem por isso deixou de fazer a sua parte. Tratou de oferecer um cafezinho a quem se dispunha a ajudar. Eram poucos. Num prédio de 17 andares, quatro apartamentos em cada um, meia dúzia arregaçou as mangas.
Fomos de andar em andar. No segundo, ninguém atendeu à campainha. Mas havia gente em pelo menos um dos quatro apartamentos. A pessoa passou a vista no olho mágico e ignorou o chamado. Em sua porta, um pano impedia a entrada da água. Os demais apartamentos do andar estavam vazios. Um deles em reforma. Nos outros, os moradores haviam viajado. E água escorria pra dentro deles. Ela não colocou os pés pra fora. Protegeu-se dentro de sua casa. Impediu o dano ao seu apartamento e ignorou os demais.
Outras pessoas reclamavam enlouquecidas na portaria:
- Onde já se viu uma coisa dessas?
- Em 20 anos, nunca vi coisa parecida aqui no prédio.
- É um absurdo!
- Se não tivessem dispensado o zelador, isso não estaria acontecendo.
Chegou o momento que a enxurrada cessou, só aí paramos. E só então parei pra pensar. Cansada do trabalho dos dias anteriores, cansada do esforço físico pra conter a água, mas feliz por ter feito a minha parte. Fiquei imaginando se eu não estivesse em casa o que teria acontecido com o meu apartamento. Será que o meu vizinho agiria como eu e mais meia dúzia de pessoas, com espírito de equipe? Será que faria como o do segundo andar, numa atitude individualista? Ou faria, ainda, como os que reclamavam na portaria, sem nada a propor para enfrentar o problema?
Fiquei triste ao constatar que vivemos num mundo onde, cada vez mais, atitudes individualistas imperam: cada um cuida dos seus problemas e está bom demais. Onde as pessoas só se unem para reclamar, sem nenhuma proposta para transformar a realidade. Um mundo onde meia dúzia de pessoas tenta conter a enxurrada e empunha seus rodos para o bem comum. Não procuramos nos unir, estamos morrendo, nos deteriorando como indivíduos.
No filme de Oliver Stone, o individualismo dos jogadores de um time de futebol americano, a atitude de só reclamar sem acrescentar, cede lugar ao espírito de equipe, depois de um longo sermão do treinador. É a última chance deles virarem o jogo, de não fracassarem definitivamente como indivíduos. Na ficção, é o que fazem.
Na vida real, ou nos curamos logo, ou não haverá mais saída. Num domingo qualquer, mesmo que a água não invada nossos apartamentos, se não fizermos nada pelos nossos vizinhos, ficaremos sozinhos no mundo e, se não morrermos afogados, morreremos de solidão ?

Publicada da Revista da APM

O BRASIL NA FILA

Se tem uma coisa que eu não suporto, e acredito que a maioria das pessoas também não, é pegar fila. Mas, infelizmente, ela tem sido cada vez mais presente em nosso cotidiano.

E justamente quando menos esperava, peguei a fila mais desorganizada e demorada da minha vida: 14 horas sem praticamente sair do lugar, boa parte delas sob um sol escaldante de 30o C. E olha que eu não estava ali para dar entrada em nenhum benefício da Previdência, ou tirar um visto de entrada nos EUA. Queria, simplesmente, comprar ingressos para o show da minha banda favorita: U2.

Isso foi em 16 de janeiro deste ano. Cheguei à fila às 8h, certa de que até ao meio-dia teria meus ingressos em mãos. Não recebi nenhuma senha ao chegar ou qualquer garantia de que sairia dali com o meu ingresso. Havia cerca de 250 pessoas a minha frente. Saí às 22 h, sem nada. Também não consegui nenhuma das senhas que foram distribuídas ao final, tamanho foi o número de pessoas que furaram a fila.

A fila preferencial, ao contrário da fila do INSS – em que a maioria tem alguma condição especial, portanto ninguém tem preferência -, ali, os clientes dessa categoria tinham benefícios bem além do normal, como entrar várias vezes na fila a serviço de cambistas, recebendo uma comissão pela compra de ingressos.

A fila, na sua maioria, era formada por jovens, muitos deles com carteira de estudante, que pagariam a metade do valor do ingresso. Ou seja, não era lá uma fila muito interessante para os organizadores do evento, considerando que o valor mínimo cobrado pelo ingresso cheio era R$ 200. Preço que não condiz com o que a banda prega: erradicação da pobreza e defesa dos países pobres, e muito menos com a realidade do País, onde o desemprego ou o subemprego reinam. Como não temos histórico de protesto e costumamos engolir o que é imposto, algumas empresas se aproveitam disso.

Essas 14 horas de fila revelaram, para mim, a fragilidade da educação, do respeito e da cultura do brasileiro. As pessoas passaram a apelar para todo o tipo de burla a fim de garantir um ingresso, ou 100 no caso de cambistas (apesar do limite de 10 por pessoa). Jovens, alegres no início do dia, se tornaram agressivos com o passar do tempo. Os que defendiam “a moral” exageravam e agrediam fisicamente quem ousasse entrar na fila preferencial, fosse deficiente, grávida ou falsa grávida, idoso. Parecia que havíamos voltado no tempo e estávamos em praça pública prestes a assistir um linchamento, ou participar dele.

Apesar das agressões, a revolta da fila revelou pouca efetividade em resolver o problema. Os protestos foram poucos, tamanha falta de respeito. E o pior é que o episódio foi destaque em toda imprensa internacional. Qual a imagem que fica do nosso País lá fora?

Fica a imagem de um Brasil que está na fila. Na fila para melhorar a sua imagem para o mundo. Na fila do crescimento, do desenvolvimento. O brasileiro, na maioria das vezes, só consegue alguma coisa enfrentando longas filas, seja no posto de saúde, do hospital, dos mutirões, na Previdência, para conseguir um emprego. É preciso persistência. A fila, no Brasil, foi institucionalizada. Pena que, assim como a da venda dos ingressos, muitas vezes não sai do lugar.

Naquela dia 16, os jovens da classe média, estudantes, puderam ter uma amostra do que é ficar na fila para receber um benefício, para dar entrada na aposentadoria, para receber um atendimento médico. Muitos questionavam: – Que País é este que os “velhos” se vendem? É o País, meus caros, em que esses idosos não conseguem, muitas vezes, receber ao menos um salário mínimo, mesmo pegando filas e mais filas intermináveis. Isso não justifica a atitude, é claro, mas é uma realidade.

Publicada na Revista da APM


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