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Perfis

Foram mais de 50 perfis biográficos realizados ao longo da carreira. Destaco alguns neste espaço.

Assim na Política como na Medicina

Nelson Guimarães Proença, 72 anos, ex-presidente da APM e ex-secretário de estado: o dom de liderar

LUCIANA ONCKEN

Desafios sempre fizeram parte da vida de Nelson Guimarães Proença. Médico paulistano, 72 anos, dermatologista, dedicado à profissão, fiel aos seus pacientes. Professor, dirigente de entidade de classe, vereador, secretário de estado. Pai de cinco filhos, avô de oito netos, casado há 51 anos com a também médica Yvone Proença.
Abraçou a medicina e a política com entusiasmo. Na Associação Paulista de Medicina, sua passagem foi um marco na diretoria da entidade. Assumiu o cargo de diretor de Defesa Profissional entre 1979 e 1981. Período conturbado na assistência médica prestada no país, quando o Inamps administrava o sistema de saúde pública com as sobras da Previdência Privada. As greves tomavam conta dos grandes hospitais, culminando na greve geral de 1981, que envolveu praticamente toda a classe médica brasileira.
Ao assumir a diretoria, Proença teve papel decisivo como um aglutinador dentro do movimento médico.
“Logo na primeira reunião, o pessoal estava ainda no fragor da vitória contra a outra chapa, e eu falei: vocês vão me desculpar, mas estão totalmente errados. Essa divisão do meio médico vai acabar conosco. Devemos fazer o possível para reunir novamente a classe.”
Foi o que fez nos dois anos que se seguiram. Em 1981, foi eleito presidente, com larga vantagem, e com um programa ambicioso de atuação que pretendia reestruturar o sistema público de saúde. As principais propostas eram desvincular a Saúde do Ministério da Previdência Social e consignar fundos específicos para a área. Previa, também, a descentralização do sistema.
“Passou então a ser prioritária, na vida da APM, a preocupação com a revalorização do médico e da medicina, ambos desgastados no conceito da opinião pública e cada vez mais hostilizados por ela”, enfatizou em seu discurso de posse, em 1981, publicado em seu livro “O Fio da Meada – Análise Crítica dos fatos que envolveram a medicina entre 1979 e 1987″.
Foram dois mandatos à frente da APM. O segundo, de 1987 a 1989, já na fase de transição do sistema de saúde, com a implantação do Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde – SUDS. Entre 1983 e 1987, ocupou a presidência da Associação Médica Brasileira (AMB).
Proença relembra cada passagem de sua vida com riqueza de detalhes. Cita dados com exatidão obstinada: “Ganhamos por quatro votos de diferença. Se eu e minha mulher estivéssemos do outro lado, empatava. Foram 4797 contra 4793 votos”, referindo-se à eleição da APM de 1979, quando fez parte da chapa de Aloysio Geraldo Ferreira de Camargo à reeleição.
Fala com entusiasmo juvenil das atividades que exerceu e ainda exerce em sua vida profissional, mas mantém uma certa distância de homem público, acostumado a debates, plenárias e entrevistas. Quando questionado sobre a decisão em seguir a medicina como profissão, Proença se desarma, e o ambiente torna-se mais descontraído. O corpo junto à mesa, ereto, já se encontra relaxado na cadeira. As mãos, que antes seguravam a ponta da mesa, estão agora sobre a barriga. O olhar, ao longe. A foto do filho Luiz cercado pelos oito netos “paira” sobre a mesa.
“Estudava no Colégio Rio Branco quando ainda era na Rua Dr. Vila Nova e passava ao longo do muro da Santa Casa de São Paulo pra ir e voltar do colégio. Pensava: um dia vou estar do outro lado do muro.”
Para isso não precisou saltar o alto muro de tijolos à vista do prédio de arquitetura imponente da instituição. Passou para o outro lado ao tornar-se professor titular da faculdade, onde está até hoje, agora como professor voluntário.
Nelson conseguiu a proeza de deixar seu nome nas três mais tradicionais faculdades de medicina de São Paulo. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo na turma de 1956 e fez seu doutorado e livre docência pela Escola Paulista de Medicina, hoje Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ao que tudo indica, Proença é engajado por natureza. Alista-se até nas atividades mais simples. Determinação, clareza e coragem são alguns dos adjetivos que Esther Proença encontra para descrever o irmão.
“Quando criança sempre ia buscar a fruta no lugar mais alto. Sempre foi intrépido e corajoso”, disse Esther bastante emocionada durante a homenagem na Câmara Municipal de São Paulo, no dia 7 de junho, quando Proença recebeu a Medalha de Anchieta e o Diploma de Gratidão da cidade de São Paulo.
Coesão, coerência, tenacidade, capacidade de planejamento, integridade e honestidade. Essas foram mais algumas das qualidades apontadas pela irmã. “O Nelson era combativo, engajado em problemas políticos. Dizia que, como médico, podia atender aos problemas de centenas de pessoas; mas, como político, a milhões.”
A política também o agarrou ainda menino. Sem perceber, Nelson Proença volta a um passado distante, coisa que havia relutado em fazer no início desta entrevista. Precisamente em 1939, início da Segunda Guerra Mundial. Conta ele que, ainda alfabetizando-se, aos 7 anos, usava como exercício de leitura diária a última página do vespertino “A Gazeta”. A última página possuía uma letra maior do que as demais, o que facilitava a leitura. E acabou também politizando o menino Nelson.
Já o jovem Nelson era radical. É assim que ele mesmo se descreve na juventude. Participava de todas as campanhas, fazia parte dos comitês. A primeira vez que se candidatou a vereador foi em 1963. Reeleito por mais um mandato, em 1968. Com o AI-5, Nelson Proença resolve deixar o cargo.
Voltou à Câmara Municipal de São Paulo em 1990, reelegeu-se e ficou até 2000, período em que foi reconhecido pela imprensa paulista como “modelo exemplar de conduta dentro da Câmara”.
“Formei uma equipe de 20 colaboradores em diversas áreas, para ter uma visão completa da cidade”. Apresentou projetos sintonizados com a necessidade do município, desde o meio ambiente, até o resgate da memória da cidade.
Nelson Proença tem o dom de liderar, aquele que reconhece talentos, forma equipes, delega, incentiva novos líderes. Sempre foi assim. Em todas as suas atividades. Como professor da Santa Casa, como representante de classe, vereador e mesmo na vida em família. Fala com orgulho sobre essa sua qualidade. Orgulho de quem deixa pessoas aptas a darem continuidade aos seus projetos.
“Sempre me preocupei com a formação de equipes em todas as atividades que assumi posto de comando. Comprometida, a equipe dá continuidade ao trabalho”, analisa.
Cita discípulos como quem fala de mestres: Fausto Alonso, Clarice Zaitz, Ilda Duarte, Marcos Maia. Grandes nomes da dermatologia em diversas subespecialidades que passaram pelas mãos do professor Nelson Proença.
“Procuro a valorização humana em todos os níveis. É importante a valorização dos que colaboram conosco.”
A capacidade de planejamento apontada pela irmã Esther parece mesmo fazer parte da rotina de Nelson Guimarães Proença. Homem que conseguiu conciliar tão bem vida pública, profissional e famíliar. Nunca deixou de atender seus pacientes no consultório, dava suas aulas na Santa Casa de São Paulo e sempre se dedicou à família.
Durante a homenagem no dia 7 de junho, pediram seu retorno à vida pública. Mas ele considera encerrada essa fase de sua vida.
A medicina é a sua grande paixão. Nem na época em que ocupou o cargo de secretário de estado de Desenvolvimento e Assistência Social de São Paulo, a convite do governador Geraldo Alckmin, em 2001, deixou seus pacientes de lado. Quando chegou o momento de escolher entre a política e a medicina, preferiu a medicina.
“Atendia no consultório a partir das 6h30 até no máximo 8h45. Seguia para a secretaria, de onde só saía por volta de 22h. Quando o governador foi reeleito, e eu contribuí muito em sua campanha, pedi para que me substituísse. Ele ficou surpreso, porque não é comum um secretário de estado pedir substituição, mas entendeu meus motivos.”
Os motivos? Além da medicina, a família. Em 1973, pediu exoneração de um cargo público para poder almoçar todos os dias com Yvone e os filhos Sônia, Thais, Ruy, Cristina e Luiz Roberto. De lá pra cá, transcorreram-se 21 anos e o almoço virou ritual. Às vezes com a presença dos netos.
A entrevista, que se iniciara uma hora antes, já avança para lá do meio dia. Nelson está apreensivo pelo seu término. Está na hora de ir pra casa compartilhar a refeição com a família. Yvone já ligou e ele ainda tem de passar na padaria para comprar o pãozinho.

Um humanista assume a Presidência

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Um humanista assume a Presidência

A partir de 1o de outubro, Clóvis Francisco Constantino assume a presidência do Cremesp, onde fica até o fim de 2004. O pediatra tem atuação em entidades médicas desde os anos 70

por Luciana Oncken

O cidadão Clóvis Francisco Constantino sempre soube que seria médico, mas um cirurgião cardiovascular e não um pediatra. E antes de se tornar médico foi um apaixonado pelas letras e pela música. Estudou no Conservatório de Piano, freqüentava o Centro de Ciências, Letras e Artes, escrevia poesias, compunha músicas e gostava de jogar xadrez.

Sempre voltado para o humanismo e dedicado aos estudos, fez o ginásio e o científico no Colégio Culto à Ciência, mesma escola em que  estudou Santos Dumont, em Campinas. Foi colega de Regina Duarte e teve aulas de Filosofia com a mãe de outra futura atriz, Maitê Proença. São lembranças que marcaram sua vida, assim como a força de sua mãe, Clarice, que, viúva aos 21 anos, criou os dois filhos – ele, de três anos, e seu irmão, de um; o tio Cláudio, que ajudou a criá-los; a mulher, Liane, e um sobrinho, Caio, falecido quando cursava o quinto ano de medicina.

Único médico da família, o presidente do Cremesp contou que estudava muito. “Chegava até a ser exagerado”, lembra. Mas encontrava tempo para o Centro Acadêmico e para o movimento estudantil, em plena ditadura militar. Participava de passeatas, freqüentava a Atlética, tocava música, fazia serenata e escrevia poemas. Havia também o xadrez e o tênis de mesa, a modalidade esportiva preferida.

Fala com saudade desses tempos de estudante, seis anos dos quais morou numa república, na esquina da rua Loefgreen com Napoleão de Barros, a 50 metros da faculdade, na Vila Clementino. O sobrado foi demolido, mas a história permanece na memória. “Não existirão na minha vida anos tão bons como aqueles seis da faculdade.”

Até então, tudo indicava que ele seguiria a carreira de cirurgião cardiovascular pois, do segundo ao quarto ano, participou das equipes da área na EPM, como estudante voluntário, e assistia às cirurgias no hospital da Beneficência Portuguesa. Mas foi surpreendido “por um passe de mágica” quando chegou ao quinto ano. “Eu não sei bem por que resolvi fazer pediatria; foi uma coisa imediata, que eu não consegui explicar.”

Mas se a pediatria entrou na sua vida dessa forma, a presidência do  Cremesp foi uma conquista de anos de trabalho na defesa do exercício profissional. Em vez da carreira universitária formal, dedicou-se à Educação Médica Continuada e defendeu essa tese nas entidades por onde passou.

Em 1974 ingressou no Hospital do Mandaqui, na zona Norte da Capital, onde ajudou a criar o serviço de pediatria e, uma década depois, ajudou a fundar o programa de residência médica da instituição. Mais tarde implantou os cursos de Ética e Bioética, disciplinas das quais é professor na própria instituição e professor  convidado em outras.

Outra coisa que ele não esquece: seus primeiros professores de Pediatria – Wilson Maciel e Azarias de Carvalho, com quem ainda mantém laços de amizade.

Hoje sua agenda diária se divide entre as atividades no Hospital do Mandaqui, salas de aula, atendimento no consultório e reuniões com entidades médicas. Apesar da agenda carregada, diz que não tem problema para conciliar suas atividades profissionais com as familiares. Constantino casou quatro vezes e teve dois filhos – Jacques, de 28 anos, jornalista, da primeira união; e Mário, de 12, de sua união com Liane.

Diz que já incorporou o cargo de presidente do Cremesp ao seu cotidiano. Está se licenciando de uma série de atividades, mas não abre mão das aulas e do atendimento no consultório. “Para ser o presidente do Cremesp, preciso continuar em atividade assistencial, para continuar compreendendo nossas necessidades.” Ele pretende participar do aprimoramento das ações em conjunto com as entidades médicas, conforme divulgado em sua campanha. “Todas têm um mesmo objetivo, e para atingi-lo de forma otimizada é preciso uma comunhão de ações”, conclui.

Carreira profissional começou nos anos 70

Desde os anos 70 Clóvis Constantino participa de atividades em associações médicas. Foi presidente da Sociedade de Pediatria de São Paulo, de 1998 e 2001, e conselheiro do Cremesp na gestão 1993/1998, exercendo as funções de tesoureiro suplente e corregedor. É presidente da Comissão de Ética, desde 1988, coordenador do Curso de Ética e Bioética, e membro da Comissão de Residência Médica no Conjunto Hospitalar do Mandaqui. Atualmente ocupa uma das vice-presidências da APM, entidade da qual já foi Diretor Administrativo entre 1995 e 1999, e 2º vice-presidente na gestão 1999/2002. Constantino também é diretor de Certificação e Qualificação Profissional da Sociedade Brasileira de Pediatria e membro do Departamento de Bioética da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

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A voz da persuasão

A Revista da APM homenageia, no Dia do Médico, uma profissional que simboliza a luta pela implantação da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM). 

Virgínia Helena Reggi Pécora, 47, dermatologista, deixou seu consultório para participar de uma reunião da categoria, na qual compareceram cerca de 500 médicos. Tímida, mas determinada, usou a palavra quando os debates seguiam num clima de esmorecimento. Ela foi a injeção de ânimo que faltava à assembléia. Nesta entrevista, diz que quem a inscreveu para falar na reunião foi seu marido, também médico. O gene da medicina veio de seu pai, um médico de família, e se estende ao seu filho, estudante de medicina. Virgínia diz que a luta pela implantação da CBHPM fez recuperar um prazer que há muito não sentia: “o prazer de atender e conversar com meus pacientes”.

A voz da persuasão

LUCIANA ONCKEN

Virgínia Helena Reggi Pécora é avessa ao fenômeno das celebridades. Fama nunca foi uma palavra que passou pela sua cabeça. Reconhecimento, sim. Aos 47 anos, se autodenomina tímida e inquieta. Médica dermatologista, filha, sobrinha, mulher de médico, mãe de um estudante de medicina, tem sua vida permeada pela profissão pela qual se encantou desde criança. “Aos 7 anos, já fantasiava situações de atendimento. Nunca pensei em ser outra coisa senão médica”.
A medicina que conheceu, a que seu pai praticava, era diferente. Não havia tantos intermediários. O médico dependia menos das empresas. Existia, ainda, a figura tradicional do médico de família. Tempos não tão remotos, mas que a cada dia parecem mais distantes. Virgínia tem verdadeira paixão pela profissão. Busca preservá-la a qualquer custo. E foi isso que a levou a protagonizar uma cena, diante de mais de 500 colegas, na última assembléia de médicos da capital, no dia 9 de setembro, no Hotel Renaissence. “A culpa foi do Juca”. Juca é José Ricardo Pécora, seu marido: médico, ortopedista, professor, também apaixonado pela medicina, preocupado com o futuro da profissão, engajado no pouco tempo que resta do dia. Ele a inscreveu para falar, certo de que ela daria conta do recado. E que recado! Virgínia começou num tom suave de voz, mas de repente se empolgou. A voz tremida já não conhecia barreiras. O auditório parou para ouvi-la. Quem não estava olhando, se virou para ver Virgínia falar. “Recuperei um prazer de atender meus pacientes que há muito não sentia,” desabafou no final. Foi ovacionada.
Virgínia leva uma vida atribulada. Divide seu tempo entre o consultório e a família. É mãe de cinco filhos: José Otávio (22 anos), Helena (20 anos), Alexandre (18 anos), Luiz Henrique (15 anos) e Lídia (12 anos). Ainda arranja tempo para jogar tênis e tocar piano.
Busca atender os pacientes da mesma forma, independente do valor pago pela consulta. Mas o problema, com o passar do tempo, torna-se matemático. É preciso manter o consultório, investir na educação continuada e pagar as contas em casa. “O médico acaba tendo de atender mais”. Antes mesmo do movimento, Virgínia já havia reduzido o número de operadoras para trabalhar, apenas duas, as demais atende somente por reembolso. Em seu discurso, na reunião dos médicos, ela disse que havia recuperado o prazer em atender seus pacientes “que há muito não sentia”. O que ela quis dizer com recuperar o prazer em atender é que o movimento abriu um diálogo com os pacientes e a possibilidade deles entenderem a situação do médico. “Houve uma aproximação maior”.
Virgínia e José Ricardo mantêm uma clínica no Pacaembu juntamente com parentes e colegas de turma da faculdade. O ambiente é familiar. Mostra-se entrosada com a equipe de trabalho: o pessoal da recepção, secretaria e manobristas. Guarda um carinho especial por cada colaborador. Um café na copa pra descontrair. Cheiro e gosto de café caseiro. “É o Antônio que faz. Receita de família, do meu pai. E ele faz exatamente do jeito que eu gosto”. E o papo de cozinha prossegue. Tenta convencer a nova secretária, Eoli, que veio do escritório de economia do sogro, a deixar o vício do cigarro. De dois maços, passou a um por dia, depois de começar a trabalhar no consultório. “Tem que reduzir mais Eoli”, insiste.
Não fica à vontade no papel de entrevistada. “Mas se é pra incentivar os colegas, tudo bem”, ainda sem graça com a situação. Põe as mãos sobre o rosto, num gesto de vergonha, e sorri feito criança. “Meus filhos estão com medo que a mãe fale bobagem”. Virgínia tem gestos delicados e, aos 47 anos, um rosto ainda juvenil. “Adoro a minha idade”, ressalta. Guarda um ar de menina, da filha mais velha que seguiu os passos do pai: Moacyr Reggi, cirurgião de cabeça e pescoço. A diferença é que o pai atuava no setor público, era médico do Hospital do Servidor Municipal. “No final de semana, íamos aos plantões visitá-lo. Sempre gostei do ambiente de hospital”, recorda-se.
“Meu pai tinha uma visão romântica da medicina. Era uma coisa de vocação mesmo. Ele era um homem muito íntegro, mas humilde”, fala com orgulho do pai, que morreu há 10 anos. Já a mãe, Aparecida Nunes de Abreu Reggi, abriu mão da medicina pelo marido. “Meu pai era um homem muito bom, mas era um pouco machista e ciumento. Naquele tempo não era como hoje, que a mulher trabalha. Eu brinco que a minha mãe é uma médica charlatã. Quando meu pai não estava em casa e ligava alguém conhecido, ela mesma passava a receita”, diverte-se. Dona Aparecida chegou a fazer o cursinho para prestar medicina. Foi colega de Nelson Guimarães Proença, de quem Virgínia se diz fã. Aparecida se dedicou ao piano e às artes. Ensina música aos netos e é artista plástica. Várias de suas esculturas enriquecem a decoração da casa da filha.
E a visão de Virgínia sobre a medicina, qual seria? O entusiasmo com que fala da profissão demonstra também a paixão e a vocação da dermatologista. Pensa que a situação pode melhorar e espera contribuir de alguma forma para isso. “Gostaria de mudar um pouco a imagem da minha especialidade”. Ela acredita que a dermatologia, hoje, na mídia, está muito atrelada ao lado estético e comercial. “Existem muitas doenças sérias, muitas descobertas importantes para serem divulgadas”, alerta. Virgínia destaca o trabalho da Sociedade de Dermatologia nas bem sucedidas campanhas de câncer de pele, por exemplo.
Dedicada e seguidora de seus instintos, enfrentou grandes desafios para ser médica e mãe. “Ela passou em todas as faculdades de medicina”, entrega Dona Aparecida. “Ai mãe, não precisa falar isso”, envergonha-se Virgínia. Optou pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Formou-se em 1981. Recorda-se do primeiro plantão e de como foi importante o apoio psicológico que recebeu na faculdade. “Chegou uma criança com o rosto comido por rato. Fiquei tão angustiada. Cheguei em casa e minha mãe perguntou sorridente como tinha sido o meu primeiro plantão. Caí no choro”.
Ficou noiva de João Ricardo antes mesmo de ingressar na Residência Médica do Hospital das Clínicas, numa época em que havia o folclore de que mulher casada não entrava na RM. Virgínia não só entrou, como teve João Otávio quando cursava o primeiro ano. “Na época não tinha licença maternidade. Tirei 30 dias de férias para poder ficar com ele, mas esqueci de trocar um dos plantões e tive de trabalhar. O Juca levava o João Otávio de duas em duas horas, no plantão, para eu amamentá-lo”. Quando regressou ao trabalho, depois das férias, João Otávio ficava na creche do hospital. Cresceu ali dentro. Hoje, está no quarto ano de medicina, lá mesmo, na FMUSP.
Mesmo tendo mais quatro filhos, nunca faltou a um plantão ou chegou atrasada às aulas. “Sempre gostei de família grande. E tenho vocação pra ser mãe. Sentia-me muito bem quando estava grávida. Na medicina e na maternidade, me realizo”, empolga-se.
A mãe teve papel fundamental em sua vida. “Sempre que preciso posso contar com ela. Com o Juca também. Ele é super compreensivo. Quando trabalho o dia inteiro, a gente pede alguma coisa pra comer á noite e está tudo bem”. Hoje, mais tranqüila, Virgínia reserva alguns horários da semana para se dedicar aos filhos. “Aí eu sou a motorista deles”. Costuma passear pelo bairro e freqüenta, aos finais de semana, o São Paulo Atletic Club (SPAC). Adora morar na região do Pacaembu. “É tão tranqüilo por aqui, posso fazer muitas coisas à pé. Nem parece que estamos em São Paulo”.
A médica dermatologista também se realiza na conquista dos filhos. Não se contém de felicidade ao receber a notícia de que a filha Helena conseguiu o estágio de Economia que tanto queria. Orgulha-se de João Otávio. “Este é o meu médico”. Lídia é o xodó. Mais nova, aos 12 anos, já pensa em seguir os passos da mãe. “Mas ela adora artes, faz teatro, balé”. Henrique ensina a mãe a mexer no computador. Alexandre começou a se interessar pelo piano. “Ele toca de ouvido, é ótimo”.
Virgínia, a médica, mãe de cinco filhos, naquela noite de setembro revelou seu lado inquieto e inconformado. Saiu numa quinta-feira à noite para apoiar as reivindicações de sua classe e o pleno exercício da medicina. “É o mínimo que posso fazer pela profissão. É o nosso futuro que está e jogo”. Enfrentou a timidez diante de mais de 500 colegas. Mesmo sem querer, teve seus minutos de fama e deu a injeção de ânimo que todos ali precisavam.
Humilde, não tem noção da importância de sua atitude, do exemplo que deu. “Não fiz nada, faço tão pouco”, tentando apagar o brilho da sua reação. “Eu acreditei e acredito, temos a chance de melhorar”.

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Alberto Nupieri: O “pai” da APM, um peregrino

Há 75 anos, um homem de grandes ideais, inquieto, visionário, quis uma entidade aberta à participação de todos os médicos e fez uma verdadeira peregrinação para convencer os colegas da criação da Associação Paulista de Medicina

LUCIANA ONCKEN 

Um jovem muito magro bate à porta do consultório médico. O profissional atende e se depara com um homem de olhos claros, olhar penetrante e uma densa cabeleira de calabrês, pasta em punho e muitas idéias na cabeça. Explica os motivos pelos quais ali se encontra. Em seguida, tira uma lista, de onde constam alguns nomes. A cena se repete nos diversos consultórios médicos pela capital paulista. Uns não dão ouvidos ao caniço. Outros assinam a lista para se verem livres do importuno. Outros escutam, mas não dão ouvidos. Chamado de o italianinho do Brás, por colegas, ele é Alberto Nupieri, médico formado pela segunda turma da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Sua missão? Convencer os médicos paulistas de que São Paulo precisa de uma nova entidade médica que congregue todos os médicos, sem distinção.

Ali, em setembro de 1930, surge o embrião do que viria a ser a Associação Paulista de Medicina. De gestação rápida, nasceu depois de dois meses, em 29 de novembro daquele mesmo ano.

Em outubro deste 2005, depois de 75 anos, foi a vez da APM fazer o caminho inverso. Batemos à porta de um apartamento num dos muitos prédios charmosos do bairro de Higienópolis. A porta se abre. Do lado de dentro, surge uma senhora de baixa estatura, cabelos densos. Esboça um sorriso reservado. Somos convidados a entrar. O espaço é aconchegante. Três salas formam o ambiente social: a sala de jantar, a de estar, e um cantinho para uma conversa. A decoração é impecável. Ali, encontramos a única filha do idealizador da APM, Mara Nupieri, 68 anos. Mas poderíamos até dizer que Mara tem uma irmã, concebida a partir de um sonho de seu pai, antes mesmo dela existir. Uma irmã mais velha fruto de um ideal, fecundado por mais de 200 médicos em 1930. Essa irmã, de 75 anos, é justamente a Associação Paulista de Medicina, que está ali para resgatar a sua história por meio de seu “pai” Nupieri.

E a história de Alberto Nupieri começa no século XIX, mais precisamente em 8 de setembro de 1891, quando nascia esse filho de imigrantes italianos vindos da Calábria. De origem humilde, rígido de princípios, foi uma pessoa que lutou muito para estudar. “Os italianos não eram assim bem-vindos, sabe?”, conta a filha.

Para arcar com os estudos e se manter, trabalhava nos Correios. Praticamente não comia, seu almoço era uma média (café com leite). “Acho que era por isso que o papai era magro! (risos)”. Tanto era magro que costumavam chamá-lo de caniço (magrelo).

Mara não sabe explicar de onde veio o interesse do pai pela medicina. Ela acredita que foi simplesmente porque não havia muitas opções na época para o estudo superior. “Vovô era uma pessoa muito simples, não tinha muito estudo. Era um italiano que veio para cá e viveu comprando e vendendo imóveis. Naquela época era tudo restrito, ou era medicina, ou engenharia, ou direito”.

Ao falar do pai, os olhos de Mara brilham. Voluntária encantada pelo seu trabalho no Hospital Sírio-Libanês, é mãe de três filhos, dois homens e uma mulher. Nenhum deles seguiu a profissão de médico. “Eu tenho muita tristeza quando pego essas coisas (se referindo aos documentos em cima da mesa: recortes de jornal sobre a criação da APM, artigos, fotografias…), porque teve uma época da minha vida que acompanhei muito o trabalho dele, vocês sabem, quando a pessoa morre, as coisas vão para cima do armário. Então é triste isso, não é? Mas o que ele fez nunca vai morrer, não tem como apagar”, fala num tom suave e doce.

A filha começou a acompanhar o trabalho do pai depois dos 18 anos, quando trabalhou com ele na prefeitura. Ela destaca, entre os feitos do pai, sua dedicação pela saúde e bem-estar da criança. Chegou a idealizar o Grande Conselho da Criança Paulistana, aprovado por unanimidade pela Câmara de São Paulo. Fazia parte do projeto passar o Hospital Menino Jesus à prefeitura para ficar subordinado ao departamento que Nupieri coordenava. “Eu trabalhava com ele quando ele criou um departamento de assistência à infância e maternidade, que cuidava desde o pré-nupcial, pré-natal, eugenia e puericultura.”

Nupieri era um visionário. Defendia a obrigação, por parte da Igreja, de exame pré-nupcial. “Mas isso não foi aprovado na época, porque senão ninguém ia se casar. Era época que havia muita sífilis”, relembra Mara. Também estudou a legalização do jogo em diversos países. Há uma pasta que reúne todas as cartas que enviava para os mais diversos países questionando a legislação do jogo. A sua idéia era que parte dos prêmios fosse revertida para ações sociais. Também já pensava na criação de creches para as mães trabalhadoras deixarem seus filhos, isso numa época em que não era comum as mulheres trabalharem. “Ele era um lutador, e não se cansava de escrever cartas e mais cartas, para tudo o que ele queria”.

O trabalho de Nupieri era reconhecido e prestigiado pelos secretários de higiene da época, entre eles, Vladimir Piza e Demóstenes de Martine. “Eles atendiam papai em tudo o que ele precisava para o trabalho com as crianças, porque confiavam e sabiam que o trabalho seria feito.

Como pai, era um incentivador. Mara passou a dirigir automóvel por insistência dele. “Eu guiava meu próprio carro. Isso era um privilégio para as moças da época. Guio até hoje e ele foi o meu maior incentivador, me fez perder o medo, porque eu sou medrosa igual a minha mãe. Ele não. Era muito corajoso.”

Mas ela lembra que ele também era um pai exigente. Fazia questão que a filha estudasse. Da mesma forma, foi com os netos. Sempre os acompanhando nos estudos. “Ele era bravo, nada bonzinho. Eu odiava estudar e ele exigia. Ele nunca achou que nota fosse coisa importante, porque dizia que os colegas de classe melhores do que ele não tinham se realizado profissionalmente, não tinham grandes realizações.”

Mas havia as compensações. O pai a levava em todos os bailes de formatura dos clubes. Fazia questão de acompanhá-la e sempre levava as amigas junto. “Sempre ficava numa mesinha, me esperando.” Já a casa na Nova Cantareira (próxima à Serra) vivia cheia de amigos da filha. “E eles gostavam muito dele, porque era muito sociável.” Mara recorda-se que a casa era grande e tinha até um bar. Era lá também que Nupieri recebia os colegas e amigos e fazia festas todas as sextas-feiras para a vizinhança. “Era a casa mais sociável da região, por isso todos iam lá. Vinham também os colegas, principalmente aqueles que o ajudaram a fundar a Associação.”

Uma história, contada por ela, ilustra bem o clima e até que ponto ia a sociabilidade de Nupieri. Aos sábados, a família realizava open-house, as pessoas entravam, comiam, bebiam, iam embora. Até que, num sábado desses, entra um sujeito na casa, se farta de comida, bebe meia garrafa de whisky e sai.

- Você o conhece – Alberto pergunta à filha.

- Não!

“Até hoje, ninguém sabe quem era aquele homem (risos).”

A característica mais marcante, apontada e confirmada por Mara, amigos e admiradores de Nupieri, é o idealismo e a capacidade de realização. “Lutava sempre, sempre, sempre. Tinha uma personalidade marcante. Não era homem de fazer jogo de cintura, mantinha os princípios dele. Não era político, nem socialmente, nem de partido”, ressalta a filha.

O médico e professor Pedro Monteleone, precursor do jornalismo médico e diretor de A Gazeta, assim o definia: “Este grande idealista, pioneiro da defesa dos direitos do médico, ilustre médico paulista, foi o primeiro a ventilar no Brasil os problemas da classe e sua tribuna foi a Associação Paulista de Medicina. Aí, agitada por ele, tivemos sessões memoráveis que vararam madrugadas. Destas, destacamos a questão da Ordem dos Médicos”.

Sim, a Ordem dos Médicos do Brasil também era um sonho de Nupieri e uma bandeira que ele carregava. Ao que chamava de Ordem, era um modelo de fiscalização de disciplina da profissão, ao qual todos os médicos obrigatoriamente deveriam ser inscritos. Na visão dele, uma ferramenta indispensável que criaria um sistema de disciplina e da atividade médica. A idéia foi amplamente debatida durante 14 anos. Críticos e admiradores se degladiavam em longos debates nos periódicos A Gazeta, Diário da Noite, entre outros.

Em 1944, são criados os Conselhos Federal e Estadual de Medicina. Mais um sonho de Nupieri era realizado. “Acaba de ser distinguido ao alto cargo de Conselheiro o Dr. Alberto Nupieri, nome por demais conhecido e admirado nas lides classistas”, anunciava a notícia da Tribuna Médica de 28 de outubro de 1946.

E vinha acompanhada da seguinte “Notícia Biográfica”:

“Alberto Nupieri é um nome que sintetiza uma época, uma luta, um ideal. Luta de reivindicações classistas. Idealismo e abnegação próprios dos grandes lutadores. Em 1930, inicia sua fecunda atividade em benefício da classe, lançando a idéia da fundação da Associação Paulista de Medicina (…)”.

Jairo Ramos, outro grande nome da classe médica paulista, costumava dizer, em meio aos jogos de bilhar, quando a entidade ainda era no edifício Martinelli e ele ainda não pensava em ser presidente:

- Você é secretário, datilógrafo, moço de recados.

Ao que Nupieri respondia:

- Não há outro remédio. Tarefa ingente, recursos parcos.

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Sobe!

A história da APM completa 75 anos no dia 29 de novembro. A história do seu Carvalho completou 68 anos no dia 25 de outubro. Na história do seu Carvalho tem muita história da APM, e na história da APM tem muita história do seu Carvalho

LUCIANA ONCKEN

A vida do seu Carvalho é um sobe e desce, um vai e vem, um abre e fecha. Quem visita a sede da Associação Paulista de Medicina (APM), na avenida Brigadeiro Luís Antônio, sabe bem o porquê. Seu Carvalho, ou melhor, Demerval Carvalho Pimentel, é ascensorista do prédio sede (que tem 14 andares, sendo 13 servidos por elevador) há 20 anos.

- Primeiro!

Mas a primeira vez que Demerval teve a chance de subir, que as portas da vida se abriram para ele, foi quando seu pai Laudemiro de Oliveira Pimentel o escolheu, e a mais um irmão, entre os 12 que formavam a prole, para estudar. Coisa que não era nada fácil lá na terra do seu Carvalho. Era um tal de vai e vem. Longas caminhadas de 30 quilômetros da zona rural de Teresina, no Piauí, até à escola, pra aprender o beabá. Ele não desistiu, tomou gosto pelos estudos e percebeu que Teresina era pequena demais para os sonhos de jovem. Ao terminar o ginasial, aos 21 anos, comunicou ao pai:

- Vou tentar a vida lá em São Paulo.

O pai consentiu. E, assim, Carvalho veio, deixando o pai, a mãe Inácia e os 11 irmãos, entre eles Gumercindo, com o qual iniciou os estudos. A intenção do jovem Demerval era continuar a estudar, seguir a Contabilidade.

- Segundo!

Foi aí que começou a descida. E que descida! Foram 9 dias de viagem num ônibus bem precário. “Saí de lá às 7 horas da manhã do dia 5 de fevereiro e cheguei em São Paulo às 10 horas da manhã do dia 14 de fevereiro”, lembra com precisão, num tom de voz grave, ressaltando que essa passagem da entrevista é só uma curiosidade, um parênteses. E que parênteses, heim, seu Carvalho?

Demerval é mesmo assim, um gentleman com seu jeito meio formal, gentil, prestativo. Parece não querer incomodar com esses “detalhes da vida”. Tem um tom de voz realmente marcante, estufa o peito de ar para falar e parece até ficar maior do que o seu apenas 1,50 metro de altura. Seu sorriso largo, sua simpatia são suas marcas registradas.

- Terceiro!

E com todo esse seu jeito, ao chegar aqui em baixo, no sudeste do país, com toda vontade de vencer em São Paulo, se deparou com a primeira dificuldade. Na prática, as coisas não eram assim tão fáceis como pareciam em sonhos. Veio para ficar com um tio e com um primo que já moravam por aqui, mas encontrou na casa deles condição pior do que a que vivia lá no Piauí. “As coisas eram realmente difíceis”. As portas pareciam estar se fechando.

Mas acontece que esse primo dele, Pedro Alves Pereira, trabalhava como faxineiro no 278 da avenida Brigadeiro Luís Antônio, ou seja, na APM e o indicou para trabalhar numa cooperativa para médicos que ficava no térreo do prédio sede. “Era um tipo de um supermercado para os médicos, vendia de tudo”, explica. Foi a primeira vez que Carvalho entrou na APM.

- Quarto!

Trabalhou por ali durante dois anos, de março de 1960 a setembro de 1962. Em outubro desse mesmo ano, começou a trabalhar como funcionário da Associação Paulista de Medicina, no Clube Médico. Esse tal clube não tem nenhuma relação com o Clube de Campo da APM de hoje. Era aqui mesmo na sede, um espaço reservado no 12o andar onde os médicos se reuniam para jogar carteado, fazer apostas e jogar conversa fora. Na época, o jogo era permitido por lei e parte dos prêmios era revertida para financiar as atividades da entidade nas mais diversas áreas de atuação, como educação continuada, cultura, e defesa profissional.

Seu Carvalho aprendeu os macetes do trabalho com um espanhol chamado José de La Fuente, que estava prestes a se aposentar. Ele conta que os médicos varavam a madrugada por aqui. Aos finais de semana, a casa vivia cheia. Tinha associado que chegava no sábado à tarde e só ia embora na madrugada de segunda-feira. “Não era bem assim (faz questão de explicar), eles iam para a casa de madrugada e voltavam na tarde do dia seguinte para ir embora de madrugada novamente.”

- Quinto!

Até hoje, o 12o andar guarda as características arquitetônicas dos anos 1950: pastilhas de vidro no piso do hall, lambris de madeira nas paredes. Nos lambris há campainhas onde se lê “Bar”, por meio das quais os médicos chamavam os garçons. O prédio foi concebido já com essa idéia do Clube Médico ocupar o 12o, com a área de jogos, e o 13o andar, com um refinado restaurante.

O único problema é que com esse negócio de trabalhar no Clube não sobrou mais tempo para estudar. Mas entre estudar e conseguir se manter em São Paulo, Carvalho preferiu ficar com a segunda opção.

- Sexto!

Com o emprego, conseguiu sair da casa do tio e foi morar perto da APM. Ele explica que sempre preferiu morar nas redondezas do trabalho para não precisar pegar condução. Ainda hoje ele aluga um espaço independente na casa de duas senhoras, mãe e filha, próximo ao Elevado Costa e Silva, na Bela Vista. Mora ali já há 13 anos, desde que se separou da mulher, em 1992, e entregou o apartamento onde morava de aluguel.

Demerval se manteve na APM até 31 de dezembro de 1981, quando houve um corte de funcionários. As portas da APM se fecharam para ele e mais 19 pessoas que trabalhavam na entidade. Ele foi embora, não para sempre. Tentou a vida de empresário ao abrir as portas de um bar, na zona leste, em sociedade com um amigo. Como não entendiam nada do negócio, tiveram de fechar em apenas nove meses.

- Sétimo!

E a vida do seu Carvalho continuou nesse vai e vem, nesse sobe e desce, nesse abre e fecha. Chegou a hora do cinema abrir as portas para Demerval. Não, ele não foi tentar ser ator. Isso nunca esteve nos seus planos. Na verdade, ele conseguiu um emprego de gerente de cinema na empresa Cinematográfica Sul, responsável por salas como o Marabá e o Olido. “Isso foi bem no final de 1982, na época daquele filme ET”, recorda.

Passou quatro anos nessa vida de cinema, até 1986. Ali, conheceu uma moça chamada Maria Geralda, que trabalhava na bilheteria, com quem se casou.

- Oitavo!

Ao sair do emprego, seu Carvalho andava meio cabisbaixo, meio desanimado. Sempre passava em frente ao prédio da APM para conversar com os amigos, entre eles o seu Ari, Aristides Alves.

- Ô, Ari, não tem nenhuma vaga aí pra mim, não? – perguntou ao colega de muitos anos.

- Vou conversar com o chefe para ver se ele não quer contratar você – disse Ari.

- Rapaz – disse Carvalho – você não sabe como eu vou ficar satisfeito.

Seu Ari explicou ao superior quem era o Carvalhinho e ele o chamou para conversar. “Só havia uma vaga de ascensorista para o período noturno. Ele ficou feliz demais”, relembra o amigo.

- Nono!

Tão feliz que há quase 20 anos, vai e volta a pé, todos os dias, de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Às vezes, com direito a alguma parada no meio do caminho para um almoço, um bate-papo… Há 13 anos, o itinerário é sempre o mesmo: sai da rua 14 de julho, com a sua pasta em punho, atravessa a Major Diogo, até chegar na esquina da Rua Santo Amaro com a Rua Francisca Miquelina, entra na Miquelina e segue até o número 67, a entrada do estacionamento da APM. Isso sempre muito antes do horário. Conversa um pouco com os colegas e, finalmente, bate o ponto às 17h, pra sair só às 23h. Conforme a escala, trabalha também aos sábados.

- Décimo!

Esses poucos quarteirões que separam a casa em que ele mora da Associação fazem companhia diária a sua vida solitária, assim como os colegas de trabalho, os médicos que freqüentam a casa, as pessoas que sobem e descem pelo elevador do seu Carvalho, para as quais ele abre e fecha a porta todos os dias. Demerval não tem filhos. Depois que os pais morreram não tem ido muito ao Piauí e vê muito pouco o único irmão, Laudemiro Filho, aposentado pela empresa Cofap, que mora em São Paulo, na zona leste, com a mulher e os três filhos.

- Décimo primeiro!

Uma coisa é certa, embora nem tudo tenha saído como planejado, Carvalho nunca deixou de sonhar. Ele é um inventor. Por volta de 1995, criou uma peça portátil para auxiliar as pessoas de baixa estatura a andarem mais confortavelmente nos ônibus. Pelo invento, ganhou até seus 15 minutos de fama, ao protagonizar uma matéria na Rede Cultura de Televisão. Mas o sonho não saiu do papel. Apesar de registrado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial, não conseguiu nenhum empresário para bancar a invenção.

- Décimo segundo!

E desde aquele agosto de 1986, quando entrou pela segunda vez como funcionário da APM, o elevador é o seu instrumento de trabalho. Passaram-se já quase 20 anos, literalmente no sobe e desce, no vai e vem, no abre e fecha. Não que ele goste tanto assim de elevador. Demerval gosta mesmo é da APM. “As pessoas acham que é exagero, mas não é, a APM é mesmo uma mãe pra mim”. E ele faz questão de explicar:

- Cheguei em São Paulo e não conhecia praticamente ninguém, a APM me acolheu no início e quando precisei de novo.

- Décimo terceiro!

O amigo Ari confirma:

- Quando entrei na APM, ele era auxiliar do caixa do Clube Médico, era o segundo homem de confiança do diretor (o primeiro era o Sr. José de La Fuente). O Carvalhinho tinha acesso a tudo. E, em todos esses anos, percebemos que a APM foi, constantemente, mãe, pai e filhos para ele. Sempre tratou esta Casa com muito amor.

Tudo bem, seu Carvalho, pode ficar tranqüilo, ninguém vai achar que o senhor está exagerando não.

- Desce! Ou sobe?

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Viver para contar

Aristides Alves Ferreira, Ari, ex-zelador do prédio sede da Associação Paulista de Medicina (APM), funcionário por mais de 40 anos, e muita história pra contar

LEANDRO DE GODOI  e LUCIANA ONCKEN 

Olha lá o seu Ari! Caminha para cima e para baixo com seu rádio na mão, resolvendo um problema aqui, outro ali. Pára um pouquinho pra redigir um documento em sua velha máquina de escrever. Agora ele está acompanhando o Luciano e o Faustino da manutenção. E lá está ele, ajudando no elevador. Voltou aos tempos de ascensorista? Não. É que hoje é dia de Chá com Cinema, dia de visita da turma da Terceira Idade. E as pessoas são muitas. Precisa de uma mãozinha do seu Ari.

A rotina de Aristides foi essa de 1975, quando foi convidado para ocupar o cargo de zelador, a 2004, quando deixou de trabalhar na entidade. E como tal, ele dormia e acordava na APM. Mas antes disso, foi muitas outras coisas: faxineiro, auxiliar de escritório, auxiliar de cobrança, ocupou cargo no Departamento de Serviços Gerais…

Em São Paulo, a APM foi uma das duas únicas empresas em que ele trabalhou. Por isso, guarda com muito carinho as lembranças desses tempos. “Aqueles que sabem trabalhar na APM são bem-servidos. Sempre fui bem atendido por aqui.”

Mas antes de entrar na parte da história do seu Ari que cruza com a história da APM, vale a pena saber um pouco mais sobre esse “contador de causos”. O zelador não economiza palavras para contar a sua vida e curiosidades. E como gosta de falar! Tem orgulho da sua história. Reclina-se na cadeira, muito à vontade, põe as mãos sobre a barriga, joga a cabeça para trás. Fala com calma, sem pressa. Volta e meia mexe no grosso bigode branco. Parece mesmo é estar à beira de um rio, a pescar e jogar conversa fora com um amigo das antigas.

“Causos” do seu Ari

Quando ainda nem pensava em vir para São Paulo, quando ainda era um menino e morava em sua cidade natal, já tinha atração pelo fumaceiro dos cigarros de corda. Um belo dia, resolveu fumar. E gostou, diga-se de passagem. Seu pai, “um homem duro, porém muito justo”, como ele mesmo diz, o pegou “com a boca na botija”. A reação do pequeno Ari foi enfiar o cigarro aceso e tudo no bolso. Imagina só! Nenhuma palavra foi dita. No dia seguinte, veio a conversa:

- Ó, aqui tá o fumo, tua caixa de fósforo e, ali na plantação de milho, tá as palhas – avisou o pai.

- Tá baum – respondeu o garoto de apenas 12 anos, sem entender muito a reação do pai.

- Agora vem cá que vô lhe dá outras coisas também.

E fora da casa estava uma pequena enxada. E, empunhando a enxada, o pai explicou:

- Nunca quis que você trabalhasse cedo. Sonhei em te vê estudando. Mas avisei: se adquirí argum vício, tem de trabalhá pra sustentá. Pois então, a partir de amanhã, trabalha comigo na roça. E de tarde, estuda. Se quisé brincá, só de noite.

E assim foi.

Isso aconteceu lá na década de 1950, quando o seu Ari era menino novo. E o “causo” relatado acima era coisa normal naqueles tempos e naquelas bandas do interior de Minas Gerais.

Também era comum os rapazes, ao completarem seus 18 anos, tentarem a vida na metrópole. Todos sonhavam com uma vida melhor que a cidade grande poderia proporcionar.

E Aristides era um desses rapazes sonhadores. Um mineiro que nasceu para ganhar o mundão afora, assim como tantos outros.

De Guaranésia, com pouco estudo e sem nenhuma experiência, além do trabalho na roça, desembarcou em São Paulo, a tão sonhada terra do progresso. “Saí da minha cidade completamente xucro. Vim pra cá para o que desse e viesse”.

Trocar Guaranésia por São Paulo, apesar da vontade, não foi nada fácil para o Aristides. Sair da terra natal significava deixar os mimos da mãe e da família. Caçula de seis irmãos (dois homens e três mulheres), nascido em 9 de março de 1944, cresceu em meio à roça, lavoura, gado, açude, milharal, plantação de café e muito sol. O garoto foi criado com liberdade, solto pelo vasto quintal e pela vizinhança, brincava com quem e com o quê bem entendesse. Primos não faltavam, já que a maior parte das casas próximas, dentro da fazenda Pedra Grande, onde morava, pertencia a dez tios dele.

Apesar da origem simples, o pai Antônio Alves Ferreira e a mãe Geralda Ana Maria da Silva nunca deixaram faltar nada aos filhos. Bastante apegado à mãe, brinca com o fato dela o ter desmamado apenas quando ele tinha seis anos de idade. “Mas acho que até hoje não sei como conseguiram me tirar de lá” (risos). Já do pai guarda a lembrança de um homem correto com os filhos, justo. “Sempre fomos levados, mas meu pai estava sempre de olho. Ele avisava uma vez, na segunda a vara de marmelo comia solta”, relembra num tom de voz suave, olhando ao longe como se revivesse a cena, com seu jeitão calmo de mineiro.

“Ao contrário da maioria dos pais daquela época, ele não era severo. Quando estava nervoso, não descontava em ninguém. E quando era para brigar com a gente, conversava muito antes de tomar atitudes mais drásticas”.

E uma vez seu Antônio tomou uma medida pra lá de drástica, quando expulsou o filho mais velho, João, da fazenda. E seu Ari fica emocionado ao relembrar dessa passagem da sua vida. “Aos 20 e poucos anos, mesmo casado, meu irmão foi convidado pelo papai a se retirar da fazenda. Ele dava muito trabalho, se envolvia em brigas e sempre constrangia meu pai. Uma hora ele não agüentou e pediu para ele ir embora. Depois disso, vimos João apenas uma vez. Gostaria muito de ver meu irmão novamente”.

Sobre o fato de ter começado a trabalhar aos 12 anos, lembra que era comum começar na roça, ajudando o pai, aos oito, nove anos. “Não havia exploração. Era apenas o que acontecia, era tradição.”

E a vida de trabalhador não era moleza. Eram 12, 13 quilômetros de caminhada até as chamadas “ruas de café”. Ia com o pai, carpindo mais de 100 metros de terra por dia. Precoce, com apenas 14 anos decidiu abandonar a vida de lavrador-mirim para ser remunerado como adulto. Os seis “miréis” já não estavam sendo suficientes para ele, queria ganhar 12.

Mas para isso precisava provar que era capaz de levantar 60 quilos de café do chão e colocá-los sobre o ombro. E não é que o moleque conseguiu? Esse era o lado “bão”. O lado ruim é que também passaria a trabalhar feito gente grande, empunhando enxadão, picareta, machado, foice, inclusive uma alavanca pra remover pedras da terra.

E assim seguiu até completar os 18 anos. Mas não era só a terra que ele estava remexendo. Removeu pedras, abriu caminhos e estradas em seu pensamento. Estava decidido, tentaria a vida em São Paulo. Juntou o dinheiro do trabalho durante um ano para isso.

Seu Antônio não concordava com essa história. Para ele, significava jogar todo o esforço para criá-lo no lixo. Temia que o filho deixasse de ser obediente, que perdesse toda a educação e o respeito que ele, com muito custo, havia dado. A mãe também estava reticente, mesmo com dois filhos já em São Paulo.

O jovem Aristides veio. Trouxe com ele a mãe, dona Geralda. E não é que ele teve sorte? Não demorou muito para encontrar um trabalho num prédio residencial na rua Maria Paula, bem pertinho da APM. A primeira função: faxineiro. “Para mim, sair da enxada e trabalhar na limpeza era uma alegria”, recorda-se.

Novos horizontes

Um pequeno desentendimento fez com que ele pedisse as contas. O dinheiro que trouxe de Minas Gerais daria para seis meses. Por isso, precisava conseguir um outro emprego o mais rápido possível. Fazia longas caminhadas pelo centro de São Paulo. Um dia, passava em frente ao prédio da Associação Paulista de Medicina (APM) e resolveu parar.

- Será que não tem nenhuma vaga pra trabalhar aqui, não? – perguntou ao zelador, senhor Paulo Doleto.

O homem balançou a cabeça, respondendo negativamente. Mas o encarregado de mão-de-obra da APM, que estava por perto, pediu sua carteira de trabalho.

- Está aqui – respondeu Aristides.

- Você volte no período da tarde – respondeu o encarregado.

Depois de andar por toda a avenida Brigadeiro Luiz Antônio até o bairro do Ibirapuera, batendo de porta em porta, ele voltou para casa, almoçou e seguiu para a APM. Ia conversar com o superior, o doutor Orlando.

Deu certo. “Fui contratado como servente de limpeza e comecei a trabalhar já no dia seguinte, às 7h da manhã.”

A alegria veio seguida de uma grande tristeza. Uma ligação de um tio o pegou e a sua mãe de surpresa. Algo inesperado acontecera. O pai morrera de morte súbita, sem nenhuma explicação. Era um homem forte, de apenas 55 anos, e que nunca tivera nenhum problema de saúde. O pai não viveria para ver o progresso do filho e saber que, apesar de ter se mudado para a cidade grande, todo o seu esforço para criá-lo, dar educação, e torná-lo um homem honesto e responsável, valeria a pena. “Foi um dos piores momentos da minha vida”.

Zelo pela APM

Na APM, o trabalho era duro. Cuidava, na companhia de mais dois, de cinco andares do prédio.

Foi nessa época que decidiu voltar a estudar. Entrou na escola e foi direto para a segunda série. Pouco tempo mais tarde, pegou seu diploma no Instituto Metodista do Estado de São Paulo. E não parou por aí. Entrou para o científico.

O esforço foi recompensado. Deixou o cargo de faxineiro para se tornar ascensorista do prédio. Os compromissos eram muitos e não conseguiu mais conciliar os estudos com o trabalho e as responsabilidades em casa. Mas como sabia datilografia, foi chamado para fazer um teste para a tesouraria da entidade. A princípio, não aceitou. Achou que ainda não estava preparado para a função, que era de grande responsabilidade. Um ano mais tarde, se habilitou. Mas não havia vagas. Com isso, o gerente avisou:

- Olha, Aristides, não tenho para lá, mas o Desg (Departamento de Serviços Gerais) acabou de ser inaugurado. Pode trabalhar lá.

Ele aceitou. Começou como auxiliar. Aquela prestação de serviços era pioneira e seu Ari atendia dezenas de profissionais por dia. “Era uma procura muito grande. O médico já procurava muito a APM. A entidade era praticamente uma mãe para ele, resolvia todas aquelas burocracias que ele não conseguia resolver sozinho”, diz. “Meu trabalho era resolver problemas!”.

Em todos esses anos, acumulou funções como ascensorista, porteiro, auxiliar de escritório, cobrança, expedição/mecanografia e serviços gerais, além de desenvolver trabalhos na área de Slide Desk (atual Audiovisual). Até que abriu uma vaga na zelaria do prédio-sede, uma vez que o responsável passava pelo processo de aposentadoria.

Dos dez profissionais chamados para entrevista, nenhum deles se enquadrou no perfil exigido. Na época, o chefe de recursos humanos, senhor José Carlos, fez o convite a Aristides. Ele pensou alguns dias e aceitou. Isso foi em 1975, dois anos depois de seu casamento com Ana, “a mulher da sua vida”, com quem está casado há 32 anos. Ficou no cargo até 2004.

Foi na APM que seu Ari criou os filhos Paula e Alex. Foi na APM que seu Ari se aposentou em 1998. Foi na APM que ele permaneceu mais seis anos depois de aposentado.

E olha lá o seu Ari! Abrindo caminhos e estradas de volta para terra, transpondo muitas pedras. Olha ele ali com os filhos em São Paulo. Agora ele voltou para Guaranésia, foi dar uma olhada na sua criação de galinhas de raça e nos seus 3.500 pés de café, “plantados à mão”. Afinal, eles rendem a cada dois anos 50 sacas de café. Voltou para São Paulo. Está na sua chácara descansando um pouquinho.

Esta tem sido a rotina do seu Ari desde que ele saiu da APM. E como diz o escritor colombiano Gabriel García Márquez, Nobel de Literatura: “a vida não é aquela que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.” Ao seu Ari não faltam recordações que ele está sempre disposto a contar.

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